AS PEQUENAS COISAS
Beto Carretta
Todos os dias, lá estava ele a perguntar-me por cima do muro, como tinha sido o meu dia.
Frequentemente tinha uma palavra de carinho, uma laranja para dar como um mimo, um sorriso, largo e sincero.
Todos os dias.
Não bastasse, quando eu não saía no pátio ou, quando a chuva se fazia presente, então, tocava o celular e, lá estava ele a me perguntar se estava tudo bem, se o dia tinha sido bom e, se eu não precisava de alguma coisa.
Era apenas e tão somente um vizinho.
Tinha lá os seus setenta e tantos anos, cabelos brancos, um caminhar já trôpego pela falta de exercícios, provavelmente, mas, no rosto sempre tinha um sorriso, na voz sempre uma palavra de carinho e de incentivo.
Todos os dias.
Eu nunca pedi, jamais lhe ocupei para uma dissertação de bons conselhos, nem nunca lhe parei para que emitisse uma opinião, quer fosse de cunho individual, familiar, de economia ou política, ou, que seja do tempo: Seu Ambrósio, será que vai chover hoje?
Mas, ele sempre tinha algo de bom para me dar, algo de maravilhosos para me ensinar, palavras de alento, de alegria, de bons ventos ao que se poderia pensar nos dias vindouros.
Todos os dias.
Um dia...
Algumas pessoas demonstram o que sentem nos detalhes, nos seus gestos, nas suas palavras: perguntam se você está bem, se não estás precisando de nada, talvez percebam quando algo não está certo, talvez percebam quando estamos precisando de um movimento afável, e oferecem ajuda sem que você menos espere, aparecem justamente quando você mais precisa.
Com o tempo, a gente entende que muitos desses gestos nunca foram obrigação e muito menos tinha algum outro interesse, muito e antes pelo contrário...
Eram apenas maneiras silenciosas de dizer: “você é importante para mim”, você é legal e lhe quero bem, você me faz viver.
Talvez por isso algumas pessoas deixem marcas tão bonitas na nossa vida e, delas, nunca mais as esquecemos, mesmo porque, um dia e, ao olhar por cima do muro, ficou um vazio...
Tanto pelo que falaram, tanto pelo que disseram, e, também, pela forma como estiveram presentes...todos os dias.
No fim, são os pequenos gestos, as poucas palavras, um leve carinho, aqueles feitos sem plateia e sem esperar reconhecimento, que muitas vezes permanecem na memória por mais tempo.
Ficaram-se as lágrimas e um muro vazio...
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ECOS
hcarretta.blogspot.com
Esta crônica reflete a opinião do autor.
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