...e o finado assinou!
Beto
Carretta
- Mas, e daí, Carretta véio,
como tu tá? Faz horas que eu não te encontro?
- Vamos indo, amigo Pilhério,
pois dizem que, enquanto estamos caminhando prá frente, a coisa vai bem!
- Aliás, Pilhério, vou te “emprestar”
um conselho: não usa chinelo, tipo pantufa, prá ficar em casa.
- Mas, por que, Carretta véio?
- Porque tu começas a arrastar
os pés e daí, é um passo prá...coisa de “véio”, entende?
- Mas, Carretta véio, te vendo
aí, forte, rijo e musculoso, me lembro dos velhos tempos do Banco do Brasil. Eita,
que era maravilhoso lidar com vocês por lá.
- Verdade, amigo Pilhério, mas,
por falar nisso, me lembrei esses dias de uma história que aconteceu com um
colega meu, do Banco do Brasil e um falecido vizinho teu, lindeiro, me parece.
- Mas, bah! Então me conta.
- Pois tu sabes muito bem que
ele tinha uma lavourinha de milho e financiava conosco. Numa das safras, ele
adoeceu bastante feio e, como já tinha feito a proposta do milho lá no balcão
da Creai, precisava daquele dinheirinho, porque era uma das subsistências dele,
da mulher e, da sua filha.
- Contudo, não tinha condições
de ir ao Banco e, nosso gerente, sabendo das condições financeiras dele, porque
da aposentadoria que tirava todos os meses, no dia consagrado ao seu crédito,
pagava a farmácia, a bodega, algum tecidinho para a mulher fazer alguma roupa
e, lá se ia toda a aposentadoria.
- Então, o gerente, muito
caridoso, autorizou que o financiamento
dele fosse creditado na sua conta e, depois, alguém ia na casa dele, lá fora,
pegar a assinatura do contrato.
- E, assim foi feito e, assim,
o gerente determinou um colega, recém chegado na agência, para ir lá pegar a
assinatura do teu vizinho.
-E, lá foi ele, depois de
alguns dias, para pegar a assinatura deste mutuário. Chegando lá, na casa do
homem, notou um movimento totalmente diferente. Pessoas pela frente da casa,
alguns tomando uma cachaça, outros assando uma carne...
- Ué - pensando o colega novato, será que tem festa
aí?
- Mas, não tinha festa nenhuma,
amigo Pilhério, o nosso mutuário havia falecido e, como é a tradição pelos
rincões deste valoroso Rio Grande do Sul, nos velórios para fora, é comum se
obsequiar as visitas com churrasco e uma boa pinga, em agradecimento ao
conforto levado para a família enlutada.
- Depois do susto de nosso novo
colega, ele pensou com os seus botões: - sei lá, tenho que levar o contrato do
financiamento do milho assinado, mas como? Minha reputação, já nos primeiros
dias de banco vão ir por água abaixo...o que o meu gerente vai dizer...não, não
posso deixar isso acontecer, tenho que fazer alguma coisa.
- E, candidamente, criando
coragem e estufando o peito (colho a assinatura de qualquer jeito – pensou ele),
pediu licença para a esposa do mutuário, para a sua filha e presentes ao
velório, e, dirigindo-se ao defunto em
cima de uma mesa...tirou da sua pasta uma carimbeira...
- Pedindo ajuda para uns “hômi”
do lado da mesa, afastaram com dificuldade os dedos já endurecidos do morto,
ele lambuzou, bem lambuzado o dedão da mão direita do homem já sem nenhuma
cerimônia, e, “assinou” o contrato, selando o compromisso do falecido com o
Banco do Brasil.
- Afinal de contas, pensou ele
e de acordo com o gerente caridoso, um homem sofrido como esse tem o direito de
ganhar o seu último financiamento.
- Sorriu, disfarçadamente e,
disse a si mesmo, orgulhosamente: missão cumprida!
- Lembrando do que eu sempre
dizia lá no Banco, tascou: Buenas, e me espalho!!
-:-
HISTÓRIAS NÃO ESCRITAS DO BB
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